O general e imperador francês adorava sapatos usados, frango, ópera e mandar nas mulheres. Quero dizer, ele gostava de muito mais; mas por hora fiquemos no que parece mais trivial. Eu escrevi, p-a-r-e-c-e. A biografia desta pérola histórica merece luz à análise de alguns valores ocidentais. Explico. Napoleão era meio corso (porque nasceu na Córsega) meio teimoso. De temperamento forte, mas extremamente generoso com os amigos, Napoleão Bonaparte viveu o auge de sua vida política e militar justamente no encrencado período de transição da monarquia rabugenta, extravagante e francesa para um sistema baseado na ideia de que 'eu não sou herói', 'sou simplesmente o povo'. Talvez por isso, mesmo se autocoroando imperador, com toda a pompa captada pelo talento de Jacques Louis David, Napoleão fazia questão de declara-se e mostrar-se como um homem simples, que pouco ou nada apreciava a cozinha francesa de estirpe (inclusive irritava-se e muito, quanto seu chef servia um requintado pato à moda da Paris esdrúxula). Talvez por isso, da ideia de que o coletivo é o que importa (lembra-se?) o estranho e valente imperador usava seus sapatos até que sua planta do pé tocasse o chão das Tulherias, seu palácio residencial e escritório de trabalho, por extensão. Está explicado sua predileção por sapatos usados, por ele, devo acrescentar. Reconstruindo a França, há séculos silenciada pela censura da corte real, o nobre imperador (por ter nobres sentimentos; não confundir com imperador nobre) era ávido por ópera, tal como sua bela, traidora e traída esposa Josephine de Beauharnais, da Martinica. Na visão do astuto, as artes representam nobres valores e uma nova moralidade para uma França de alma republicana em construção. Reza a lenda, que Napoleão teria mandado encenar uma peça de teatro mais de 200 vezes, mesmo tendo sido reprovada pela júri francês especializado, somente por agrado à Josephine. Porém engana-se quem julgou Napoleão um homem subserviente aos interesses femininos. Na redação do Código Civil, Napoleão desconsiderou a possibilidade de divórcio para as mulheres e em caso de abandono feminino do lar, leia-se do casamento, a moça deveria pagar indenização ao pobre marido traído. Ainda, Napoleão dizia: A mulher é feita para casa, não para a matéria em serviços de Estado, quer dizer, em serviço de homens. Tenho mais a declarar: o imperador decidiu que a idade mínima de casamento para a mulher era de 15 anos e para o homem, 20 anos. Mera coincidência o que acontece hoje em algumas partes do mundo? Sejamos menos geograficamente abrangentes. Mera coincidência o que acontece hoje em algumas regiões do Brasil? Repito. De poeta, carnavalesco, napoleão e louco todo mundo tem um pouco.
